segunda-feira, 6 de setembro de 2010

GRAMÁTICA E IDEOLOGIA

Lucchesi, Dante; Lobo, Tânia. Gramática e Ideologia. Pg. 73- 81.




O artigo apresentado por Lucchesi e Lobo faz uma abordagem da colocação dos pronomes oblíquos átonos, baseada em uma pesquisa feita por cinco gramáticas normativas da língua portuguesa editada no Brasil, com a utilização de dados obtidos em corpus extraídos do corpus do Projeto de Estudos da Norma Lingüística Urbana Culta (NURC).


As cincos gramáticas utilizadas foram: Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha, a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra, a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, de Domingos Cegalla, a Moderna Gramática Portuguesa , de Evanildo Bechara e a Gramática Normativa da Língua Portuguesa de Rocha Lima. Também foram observados 18 inquéritos que foram: nove inquéritos do corpus do projeto NURC/SP, seis do tipo EF(Evolução Formal), três do tipo D2(Dialogo entre dois Informantes), destacando que o projeto NURC foi desenvolvido em conjunto com cinco capitais brasileiras e as informações utilizadas foram apenas de pessoas com essas características: ser natural de capital estudada, ser filho de pais naturais da mesma capital e ter curso superior completo.


A seguir é abordado o conceito da norma culta e a norma padrão. A norma culta na visão de EUGÊNIO Coseriu em seu trabalho “Sistema, Norma e Fala”, se configura pela variação facultativa normal, ou seja, por modelos sem valor funcional dentro do sistema lingüístico, fixados pelo costume, hábito ou pela tradição. Por outro lado a norma padrão compreende os modelos apresentados e prescritos pelas gramáticas normativas.


Lucchesi e Lobo ainda salientam que essa distinção entre norma padrão e norma culta nem sempre é feita, mas o que acontece é que essas duas expressões são muitas vezes apresentadas como equivalentes, sendo comum ouvir-se norma padrão ou culta. Um desses raciocínios, é que a norma culta ou padrão é aquela usada pelas pessoas cultas e as pessoas cultas são aquelas que utilizam a norma padrão ou culta.


A seguir os autores estabelecem um confronto entre o modelo da norma culta na colocação dos pronomes oblíquos átonos com um só verbo depreendido da amostra do corpus do projeto NURC, e o modelo norma padrão, obtido pela síntese das prescrições contidas nas cincos gramáticas anteriormente citadas.


Inicialmente foram destacadas três afirmações: a primeira foi a de Cunha 1981, que diz: ”Sendo o pronome átono objeto direto ou indireto do verbo, a sua posição normal é ÊNCLISE”; a segunda foi a de Cunha/Cintra 1985, que diz: “Sendo o pronome objeto direto ou indireto do verbo, a sua posição lógica normal é a Ênclise, e por último a terceira de Rocha Lima 1976, que diz: “A posição normal dos pronomes átonos é depois do verbo(ÊNCLISE)”.


Após isso o sinclitismo é apresentado ar partir de determinados contextos sintáticos que favoreciam, ou indicariam uma das possibilidades de colocação do pronome completo átono. Com isso percebeu-se que não há um acordo total entre as cincos gramáticas observadas.


A nova gramática do português contemporâneo, de Celso Cunha e Lindey Cintra se destaca na colocação dos pronomes átonos no Brasil, elas fazem a seguinte indicações que se contrapõem ás prescrições colocadas: primeiro a possibilidade de se iniciar frases com os pronomes oblíquos átonos, em especial com a forma me.


Segundo a preferência pela próclise nas orações absolutas, principais e coordenadas não indicadas por palavras que exijam ou aconselhem tal ação.


Os resultados obtidos nos corpos indicam que os contextos em que as prescrições normativas discriminam os autores que o fazem explicitamente como o verbo indicado no período na oração assindética na Rocha Lima1976, Bechara 1982 e Cegala 1979, o verbo precedido exclusivamente por sujeito nominal ou sendo o sujeito seguido por aposto ou oração adjetiva, Rocha Lima, o verbo procedido unicamente por conjunção coordenativa Rocha Lima, orações reduzidas de gerúndio, executando-se as introduzidas pela preposição em Rocha Lima e Cegala e a pausa entre o verbo e termo antecedente que “pode prejudicar a próclise” Celso Cunha, Cintra, Cegala e Rocha Lima.


Com a exposição dos resultados obtidos nos confrontos foi concluído que a primeira constatação que se impõe é a que existe para sínclise pronominal uma significativa disparidade entre o modelo encontrado no corpus, considerados como amostra da norma culta.


A identificação que as gramáticas em geral ofereceram entre a norma padrão e a norma culta constitui um dos traços ideológicos presentes nessa variante do conhecimento formalizado da língua que é gramática. Foi percebido que as gramáticas normativas se baseiam em uma norma que predominam a ênclise, ao passo que a norma depreendida nos atos de falas das pessoas cultas, no Brasil a próclise predomina.


Foi também analisado pela gramática que ocorreu uma total subversão do modelo proposto pelas gramáticas normativas, que sobre a sínclise pronominal, nada mais fez do que descrever a norma européia do português e ficou evidente no caráter ideológico na abordagem das diversas gramáticas se reportaram do modelo brasileiro e fundamentaram-se no modelo do português europeu, mas ressalva a norma gramática do português contemporâneo de Cunha e Cintra que, embora não de maneira cabal, procuraram em seu texto principal apresentar a colocação pronominal brasileira.


Nesse artigo Lucchesi e Lobo procuraram na medida das possibilidades demonstrarem o caráter ideológico e gramatical como se apresenta, isso com a compreensão de que as mudanças que se fazem necessária nesse campo específico do saber transcendem a esfera da atuação individual dos gramáticos, pois implicam não só nas mudanças, mas na mentalidade e no pensamento predominante dentro e fora do circulo especifico desse estudo como também nas mudanças das próprias relações sociais, as quais esse pensamento e essa mentalidade se expressam.

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